SETÚBAL

FOTOS do TEATRO " SOBE e DESCE "

BLOG de ILÍDIO VASQUES

  • - *A FUGA DE TODOS NÓS* Para Ilídio Vasques *Não é loucura a nossa diferença, diferente é recusar o mundo porque o mundo não está com a digni...
SOBE e DESCE 1º VÍDEO

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SOBE e DESCE - 2º Vídeo

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SOBE e DESCE - 3º Vídeo

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Setúbal - 1974








GRUPO AUTÓNOMO EXPERIMENTAL
“ SOBE e DESCE “

Fomos um grupo vocacionado para a agitação e intervenção cultural e tambem faziamos teatro.
Fundado em 1974
Ocupamos um armazém e fizemos uma sala de Teatro na Rua Jacob Queimado na Fonte Nova - Setúbal.
Fizemos espectáculos em quase todos os bairros da cidade nos largos e nas colectividades existentes e também dentro do Quartel do 11 ( fomos o único grupo a fazêlo).
Participámos em espectáculos de solidariedade com trabalhadores com salários em atraso.
Fomos fundadores do “ Artas”. Projecto de unidade de todos os grupos de teatro amador.
Promovemos muitas sessões culturais com gente das artes e do teatro e organizámos espectáculos.
Tivemos imensas iniciativas para crianças na Pintura Escultura e Teatro.
Tivemos um grupo de música popular.
Espectáculos Teatro :
- Os pescadores – texto colectivo
- O auto do curandeiro de António Aleixo
- A fuga de caxias – texto colectivo
- Os filhos da P...... – texto colectivo
- Era uma vez um rei – Baseado numa canção do J.Barata Moura ( texto colectivo )

- A Guerra Santa de Luis de Sttau Monteiro



CARTAZ de VICTOR BOGA




NOTÍCIAS DOS JORNAIS





ERAMOS SOLIDÁRIOS





ENTREVISTA DE VICTOR SERRA

AO SETÚBAL NA REDE

Para criar o primeiro teatro de intervenção
Sobe e Desce ocupou armazém em Setúbal
No dia 4 de Abril de 1975, um grupo de cerca de 40 homens e mulheres ocupou um armazém devoluto na cidade de Setúbal para a instalação da sede do primeiro grupo de teatro de rua e de intervenção: o Sobe e Desce. Nascido de uma cisão de um outro grupo teatral com a igreja, de que dependia, o Sobe e Desce foi o primeiro a mobilizar gente para as acções de solidariedade, tal como aconteceu com a primeira acção pública desencadeada em Setúbal contra a ocupação de Timor Leste pelas tropas indonésias. 25 anos depois, o fundador do grupo, Víctor Serra, recorda a época e as lutas com a Câmara de Setúbal que recusava apoiá-los por considerar que eram de extrema esquerda. Mas hoje em dia as coisas não são muito diferentes, porque subsídios e iniciativas autárquicas é coisa que não há, acrescenta Víctor Serra.

Setúbal na Rede - Onde é que estava no dia 4 de Abril de 1975?

Víctor Serra - Estava em Setúbal, onde em conjunto com cerca de 40 pessoas, tinha fundado o grupo de teatro Sobe e Desce. Nesse dia decidimos ocupar um armazém devoluto na Rua do Queimado, para ali fazermos a nossa sede. O armazém estava fechado há muitos anos e a ocupação decorreu sem problemas. Não apareceu ninguém a reclamar e ninguém nos chateou, pelo que comunicámos a ocupação ao MFA e ficámos lá. Estivemos naquele armazém durante vários anos e nunca ninguém se opôs.

SR - Como é que apareceu esse grupo de teatro?

VS - Chamava-se Grupo Autónomo Experimental de Teatro Sobe e Desce e nasceu de um grupo de teatro que existia na Igreja da Anunciada. Com o 25 de Abril levaram à cena um espectáculo chamado Antes e Depois, que era uma demonstração teatral de como as coisas tinham sido antes e depois do 25 de Abril. Um dia fui ver o espectáculo, gostei muito e perguntei se podia entrar. Eles disseram que sim e logo ali começámos a pensar na autonomia do grupo, na sequência de uma das propostas que fiz. Mudámos o nome e decidimos procurar instalações.

Éramos todos da área do MDP-CDE porque naquela altura toda a gente era desta área, e achámos que a separação da igreja era muito importante porque era preciso romper com a imagem que a igreja dava ao grupo. Inicialmente pensámos ocupar as instalações do Stela Maris e, ao mesmo tempo, pô-lo ao serviço dos pescadores para os quais foi criado. Se calhar não tivemos força ou apoio dos pescadores, porque eles estavam desarticulados do Stela Maris que era gerido pela igreja, e não foi possível chegar a vias de facto. Por causa desta nossa ideia levantou-se uma guerra entre nós e o padre responsável pela paróquia, de tal maneira que isso provocou a expulsão do grupo.

SR - A falta de instalações provocou a paragem dos trabalhos do grupo?
VS - Não provocou porque, entretanto, umas pessoas amigas cederam-nos o quintal e passámos a ensaiar ali. Nessa altura chegámos a fazer reuniões na rua, na Avenida Luísa Todi e no átrio da igreja. Mesmo sem sede, fizemos acções de animação de rua e peças infantis ao ar livre. O Sobe e Desce foi o primeiro grupo de teatro com espectáculos de rua em Setúbal porque até àquela data só se fazia teatro dentro das respectivas salas. Nós não, pegávamos no palco desmontável e lá íamos bairro a bairro ter com as pessoas. Por isso nos tornámos tão conhecidos, de tal maneira que ainda hoje algumas delas nos reconhecem.

SR - O que é que aconteceu ao armazém depois de ocupado?

VS - Ocupámos e fizemos obras. Como alguns dos elementos do grupo trabalhavam na construção civil, resolvemos melhorar aquilo e transformá-lo num mini-teatro. Fomos falar com o palhaço Quinito no sentido de nos vender uma bancada de circo. Antes de ocuparmos o armazém, a nossa ideia era comprar uma tenda de circo e andar por aí a fazer teatro. Mas como não tínhamos dinheiro para isso, ficámos pelo armazém. Naquela altura não havia apoios por parte da Câmara, tal e qual como hoje.

Lembro-me de termos feito uma guerra enorme com Odete Santos que fazia parte da Comissão Administrativa da Câmara, para ver se nos davam um subsídio. Mas como eles pensavam que nós éramos um grupo de esquerdistas não nos queriam dar nada. Entretanto chateámos tanto que acabaram por nos dar três contos, o que para aquilo que nós precisávamos era uma miséria. De tal maneira ficámos escandalizados com a verba que quando participámos com um pavilhão na Feira de Santiago, expusemos o recibo dos três contos dados pela Câmara.

SR - Qual foi a primeira peça levada à cena depois da ocupação do armazém?

VS - Lembro-me que a primeira que tentámos era um texto nosso e era sobre os pescadores. No entanto, a que estreou foi um apanhado de alguns números do espectáculo Antes e Depois. Logo a seguir levámos à cena O Auto do Curandeiro, de António Aleixo, e uma peça escrita por nós chamada A Fuga dos Pides de Alcoentre. Pouco tempo antes tinham fugido da cadeia cerca de 80 agentes da PIDE de uma das prisões mais seguras do país, e nós representámos a forma como as entidades oficiais tinham tomado conta daquilo. Fizeram-no tão bem que eles conseguiram fugir.

SR - O grupo era considerado de intervenção?

VS - Sem dúvida e o Sobe e Desce foi mesmo o primeiro grupo de teatro de intervenção em Setúbal. Aliás, a primeira acção de solidariedade para com Timor Leste foi feita pelo Sobe e Desce, em 1975, logo após a invasão do território pelos indonésios. Nessa altura, os nossos políticos não estavam do lado de Timor como estão actualmente, aliás alguns deles até apoiaram essa invasão. Mas hoje em dia ninguém fala nisso. Fizemos essa acção contra a ocupação indonésia com a participação de grupos musicais e culturais de timorenses refugiados em Setúbal.

SR - O grupo era bem aceite pela população?

VS - Sim, sempre fomos acarinhados especialmente pelas pessoas dos bairros por onde passávamos. Tínhamos por hábito descentralizar o trabalho e então íamos para o Largo da Fonte Nova fazer teatro e peças para os miúdos. Fazíamos teatro para a população e a população gostava do que fazíamos. Era muito trabalho de intervenção e de crítica ao desenrolar dos acontecimentos políticos da época.

Aproveitávamos o teatro para fazer política, ou por outra, aproveitando a política para fazer teatro. Seja como for, estávamos sempre atentos e, de cada vez que ocorriam acontecimentos importantes, nós falávamos deles nas peças de teatro. Lembro-me de um desses casos, relacionado com a luta dos trabalhadores da
PROPAM que foi a primeira empresa a ficar sem salários. Fez-se uma festa de solidariedade e nós estivemos presentes a participar na acção de ajuda aos trabalhadores.

Apoiámos ainda uma campanha desencadeada na altura para ajudar os agricultores, chamada Ligação Cidade/Campo. Fazíamos espectáculos no âmbito dessa campanha e ajudávamos o pessoal a vender os produtos agrícolas. As coisas eram mais fáceis de decidir, em termos de ajuda, porque alguns elementos do grupo de teatro pertenciam ao Comité de Luta que era o veículo mobilizador deste tipo de iniciativa.

Lembro-me também de termos participado de uma forma muito particular no
Dia de Trabalho para a Nação. Tínhamos uma atitude bastante crítica em relação ao que Vasco Gonçalves decidia - por isso éramos apelidados de extrema esquerda - e achávamos que o Dia de Trabalho para a Nação era mais uma forma do capitalismo ficar mais forte.

SR - Então qual foi o vosso contributo para esse dia?

VS - Ninguém foi trabalhar para as empresas mas, em contrapartida, fomos todos lavar a estátua de Bocage. Pedimos uma escada aos bombeiros, levámos escovas e tudo o que era preciso e começámos a lavar a estátua ao mesmo tempo que outros de nós vendiam livros na rua, que era uma das coisas que também fazíamos regularmente. Resumindo, acho que aquela foi das poucas vezes, se não a única vez, em que a estátua foi lavada como deve ser.

SR - Nessa altura qual era o panorama teatral do concelho?

VS - Embora nenhum deles fizesse teatro de rua ou de intervenção, propriamente dita, nessa época existiam seis grupos de teatro amador, desde a TEIA à Presença, passando pelo grupo de teatro do
Círculo Cultural de Setúbal. Portanto, naquela época havia uma boa actividade teatral em Setúbal, o que já ocorria antes do 25 de Abril. E é curioso que, quer antes do 25 de Abril quer nos anos a seguir, houve muito mais actividade teatral no concelho do que aquela que existe hoje. O que é certo é que, naquela época havia gente na rua, havia gente a ver teatro e comparado com os dias de hoje as coisas são muito diferentes.

SR - As pessoas mobilizavam-se com facilidade?


VS - Sim, a época era outra. Em Setúbal toda a gente queria participar em tudo e as coisas eram quase todas novidade, por isso as pessoas andavam na rua a toda a hora. O pessoal do grupo trabalhava durante o dia ensaiava e levava peças à cena à noite e aos fins de semana. As pessoas tinham muito gozo naquilo que faziam. Depois as coisas foram piorando com o tempo até que a desmobilização ocorreu com o 25 de Novembro.

SR - O que é que o Sobe e Desce fez no dia 25 de Novembro?

VS - Cada um de nós interveio da forma que sabia porque o espectáculo que tínhamos marcado para Vale de Zebro foi suspenso devido às circunstâncias. Eu, por exemplo, passei o dia dentro da Câmara de Setúbal, junto com a Comissão Administrativa, agarrado ao telefone para saber como andavam as coisas no país. Fazia os contactos pelo país para ir acompanhando o evoluir da situação.

SR - O grau de intervenção do Sobe e Desce causou problemas aos seus elementos?

VS - Não tivemos problema algum, a não ser uma confusão, novamente com o padre. Apareceram inscrições contra ele na fachada da igreja e disseram que poderíamos ter sido nós. Foram fazer queixa ao MFA e uma vez tivemos uma reunião com o capitão Reis Moura, na sede do grupo de teatro, para esclarecer o assunto e nós explicámos que não tínhamos nada a ver com o que se passou.
Ele ficou a saber concretamente o que nós éramos e concluiu que não tivemos nada a ver com aquelas inscrições. Foi esta a única vez que nos vimos confrontados com um problema porque durante os dez anos de existência o Sobe e Desce sempre foi compreendido e acarinhado.

SR - Porque é que o grupo desapareceu?

VS - As pessoas foram desmobilizando aos poucos. Depois do 25 de Novembro as coisas acalmaram e o pessoal já não tinha a mesma dinâmica, mesmo assim ainda aguentámos cerca de 10 anos. Na década de 80 o país estava diferente e as exigências eram outras, pelo que as pessoas começaram a ficar desiludidas com a situação e a desistirem da actividade quer teatral quer política.

SR - 25 anos depois do início dessa experiência, como é que vê o actual panorama cultural de Setúbal?

VS - Eu não gostaria de dizer mal, mas o que é certo é que teatro em Setúbal só o TAS, com excepção feita para o Teatro Estúdio Fonte Nova que está a fazer um trabalho notável nesta área. E isso deve-se à falta de uma política cultural deste executivo da Câmara. Aqui só se vê TAS, artistas pimbra, música pimba e pouca coisa de qualidade. Temos o Festival Internacional de Cinema de Tróia que até é feito por homem de Évora, não temos um festival de teatro, a não ser os que o Fonte Nova organizou, não há um Festival de Jazz, como no Seixal e, ainda por cima, perdemos o Cantar José Afonso porque a Câmara nunca se mostrou interessada em apoiá-lo. Assim não vale a pena porque as pessoas desanimam e deixam de ter gosto pela cultura.
Etelvina Baía - 03-04-2000 11:12

OPINIÃO DE CARLOS CÉSAR (numa entrevista ao Setúbal na Rede )

SR - Qual era o panorama cultural em Setúbal, em 1975?

CC - Lembro-me de que existia o Coral Luísa Todi e vários grupos de teatro amador, muitos deles de intervenção, entre os quais estava a Presença e o Sobe e Desce. Com o tempo foram desaparecendo e isso deve-se às dificuldades nesta área. Perdeu-se muita da carolice das pessoas que se encontravam numa colectividade para fazer teatro. Agora as pessoas encontram-se nas colectividades para jogarem às cartas e, por outro lado, há outras motivações como a televisão. Não se pode dizer que eles acabaram por se ter instalado aqui uma companhia profissional porque em muitos sítios, como é o caso de Faro, onde nessa altura não havia companhia profissional, chegou a haver 20 grupos de teatro amador e agora não há nenhum. Isto tem tudo a ver com a mudança no tipo de vida das pessoas. Etelvina Baía - 25-12-2000 11:42

1 comentário:

  1. Hoje vim aqui á tua página por via do nome de Dimas Pereira, sobre o qual um grande amigo meu me falou através dum artigo que escreveu falando deste que hoje não duvido ter sido um grande homem e vosso dedicado companheiro.
    Victor embora já sejamos amigos (embora virtuais) mas a partir de hoje fiquei ainda mais fã dos teus blogues e da tua poesia.
    Deixo-te os meus parábens a ti e a todos os teus companheiros pela tenacidade, dedicação e honra com que defendem os vossos nobres ideais. Um abraço de muita cumplicidade. Beatriz Basto

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